9 de maio de 2011

A garota.



Ela já havia feito de tudo. Ouvira música, alta, baixa, acústica, romântica, depressivas e dançantes. Pintara as unhas de verde, amarelo, azul, mas no final acabou pintando-as de preto. Fez um bolo de caneca, que cresceu mais do que devia, e não comeu inteiro... Deixando em cima da mesa para que alguém atacasse por ela. Mexeu no computador, fazendo o tempo passar, mas tampouco seu tédio cessou. Bebeu mais um pouco de água e esticou-se para alcançar a pastilha de hortelã do outro lado do móvel do computador. Metade da embalagem já fora mastigada, mas a ansiedade e o tédio continuava a persegui-lhe.

Lia os textos daquele site tão amado e tão depressivo. Um atrás do outro, sem cansar. Um divertido, um falando de amor, e outro falando de um amor ruim.

Ela bufou cansada de tudo aquilo. De todos ao seu redor falando sobre amor, enquanto ela mal estava querendo mais saber do amor. Seu coração estava quebrado, partido em pedaços minúsculos. Seu consciente dizia que era bom ninguém reparar... Mas quando se deixava refletir, via que se pelo menos uma pessoa percebe-se, querendo ou não, ela ficaria mais consolável.

A garota suspirou com o pensamento. Ela era uma garota forte, o mundo ao seu redor estava se desintegrando aos seus pés, mas ela ainda conseguia sorrir. Em alguns momentos seus sorrisos são espontâneos, e até conseguia gargalhar com besteiras. Mas na outra metade do tempo, seu sorriso só esconde a dor que sente.

Um coração partido. Essa frase soa tão vaga para ela... O amor tem sido vago para tal, exceto fraternal. Mas, provavelmente, por evitar tanto o que chamam de amor, ela acabou se apaixonando e se odeia por isso.

Leu mais um texto no site e fechou a tela, irritada. Levantou da cadeira que dava de frente ao móvel, e caminhou pela sala. Seu drama interior tinha trilha sonora e faixa bônus. Os pés a levaram até a janela de vidro que estava fechada por causa da leve garoa.

Ela respirou fundo e encostou a testa no vidro e fitou o céu noturno. Mal via as estrelas, quando ansiava vê-las, os pontinhos brilhantes não queriam ser observadas. Suspirou mais uma vez, embaçando o vidro levemente.

Só agora se dera conta, depois de tanto tempo, que seu coração estava partido. Em casa, somente com a presença da mãe que já repousara, ela se dera conta de que tinha o coração em modo figurativo totalmente dilacerado.  E mesmo assim, sentindo tanto pesar e um sentimento ruim, sorriu.
A tal garota saiu da janela, tentando afastar tudo o que pensava e sentia, afinal o que mais estava fazendo nos últimos meses era ignorar o que sentia. Foi até o sofá e sacudiu a mãe levemente, falou em um sussurro que fosse deitar e que logo se juntaria a ela.

Ela ficou de pé, ouvindo o fim da música que conseguia relaxá-la, apesar dela lhe trazer lembranças. Sorriu novamente, cruzando os braços, como se conseguisse se abraçar. Sorriu quando na verdade queria chorar. Mesmo sozinha sorriu. Sorriu mesmo sentindo tanta dor vindo não sabendo de onde. Sorriu quando queria chorar.

Ela olhou para o teto branco, tentando se conter. Lembrava do que seus amigos lhe disseram em uma noite... É claro que o seu sorriso nunca mais seria o mesmo. É claro que não estava completamente feliz. É claro que sofria sozinha, e que preferia assim.

Ela sempre ouviu as pessoas, mas nunca gostou que elas ouvissem o que sentia, não por ser reservada, mas sim porque nunca entenderia o que sentia dentro do peito. A garota só precisava de um único abraço, e essa pessoa não estava mais com ela.
Sua carência era óbvia. Procurava em outros abraços o do seu pai, mas o de ninguém conseguia substituir. E por causa dessa carência, essa procura impossível, abriu uma ferida que havia se curado há pouco tempo...

Agora pelo menos alguma coisa faz sentindo, ela pensou alto, sorrindo. A garota pensou mentalmente porque sorria para as paredes, para elas a tal não precisava mentir ao falar “está tudo bem”.

A música chegou aos seus acordes finais, mas ela continuou cantando o refrão. De pé, na mesma posição, permitiu-se chorar. Chorou por tudo. As saudades, pela sua fé, por seu coração partido, pela ferida que sangrava.  As lágrimas lentas e salgadas, teimosas por escaparem do lugar que mal deveriam ter saído.

Ela enxugou os olhos com as mangas. Sacudiu a cabeça, como se isso fosse fazer com que metade do que passava em sua mente dissipasse, em vão.  Sentou-se na cadeira do computador e o desligou sem pressa. Recolheu suas coisas em cima da mesa, e caminhou até o quarto.

A garota lembrou que tudo que havia planejado para fazer naquele dia, não havia feito nem metade, sua leitura, sua escrita, seus desenhos... Nada disso.

Deu de ombros e guardou as coisas no armário, bocejou e por fim decidiu dormir. Ela deixou o cansaço tomar conta de seu corpo, os músculos relaxarem e a escuridão tomar conta de seus olhos. Para que no outro dia pudesse enxergar o sol e acreditar que o dia seguinte poderia terminar melhor. O coração da garota pode estar em pedaços, porém, o que não deixou que seu coração sumisse foi a esperança de que dias melhores estão por vir. 



Larissa Cavalcante.

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